Papel do Pai/Mãe
O que este desporto pede à tua família
Ninguém te entrega o programa verdadeiro quando o teu filho entra numa equipa de competição. As madrugadas, as competições ao fim de semana, o calendário que passa a girar à volta da piscina. Vale a pena dizer com honestidade aquilo em que te estás a meter. Assim decides de propósito, em vez de te deixares levar.
Ideia em Resumo
- O pedido é real: tempo, dinheiro e uma casa que se dobra à volta da piscina — e costuma crescer um pouco a cada época, mais depressa do que alguém explicou na inscrição.
- Sentir o peso é normal — a maioria das famílias sente-o, muitas nunca o dizem em voz alta, e isso nada revela sobre se a tua família pertence a este desporto.
- A sustentabilidade é uma decisão da casa, melhor tomada uma vez por época — algumas perguntas honestas no início da época valem mais do que uma descoberta dura a meio dela.
Nove da noite, uma quarta-feira. Duas toalhas secam sobre o radiador. Um saco de natação está pronto junto à porta. O jantar só agora chega à mesa, porque o treino demorou outra vez. A certa altura, a casa começou a funcionar ao ritmo do horário de treinos. E é difícil apontar a semana em que isso aconteceu.
A lista honesta é mais longa do que a que te mostram no início. O tempo primeiro: nos escalões mais velhos, quase todos os dias de semana têm treino, alguns antes da escola. Uma competição pode ocupar o sábado inteiro, e muitas vezes o domingo também, por vezes noutra cidade. Depois o dinheiro: as quotas do clube, a inscrição na federação, as inscrições nas competições, fatos e toucas e material que ficam pequenos ou se gastam, combustível, uma noite de hotel de vez em quando. O total varia muito de clube para clube e de escalão para escalão. E costuma crescer à medida que o teu nadador sobe. Por baixo de tudo está a logística: alguém tem de conduzir, o jantar tem de mudar de hora, os horários de trabalho dobram-se, e a semana de todos passa a ser planeada à volta da piscina.
Kevin Pierce, num texto no SwimSwam sobre o que o desporto pede às famílias, descreve como o compromisso cresce em silêncio. Uma criança começa num grupo de iniciação e tudo parece controlável. Depois vem a lista de material da equipa, as inscrições nas competições, o convite para o grupo de competição, a sugestão de nadar durante o verão. A maioria dos clubes não esconde nada. São geridos por pessoas que dão o seu melhor com orçamentos apertados. O caminho que oferecem simplesmente acelera. Cada passo é pequeno. O que surpreende as famílias é o conjunto todo, normalmente uma época ou duas depois.
Se já sentiste o peso desse conjunto, tens muita companhia. A observação mais aguda de Pierce é sobre o silêncio: os pais que lutam com o custo muitas vezes não dizem nada. Não querem parecer menos empenhados do que a família no lugar ao lado. Alguns acabam por deixar o desporto da mesma forma, em silêncio, um treino falhado de cada vez. Uma família esticada não fez nada de errado. O desporto pede muito. E reparar no peso é o primeiro passo útil. Dizê-lo em voz alta em casa é o segundo. É essa a diferença entre uma família que carrega o peso em conjunto e um pai que o absorve sozinho.
O dinheiro também importa menos para o futuro do teu nadador na água do que a pressão para acompanhar os outros faz crer. Uma revisão de 43 estudos sobre porque as crianças abandonam o desporto organizado, com a natação entre as modalidades mais estudadas, descobriu que as maiores razões vivem dentro do próprio desporto: se ainda é divertido, se a criança sente que está a melhorar, as pressões sociais à sua volta, e outras partes da vida a competir pelo seu tempo. As limitações práticas, como o custo, surgiram muito menos vezes do que essas. O que mantém um nadador na água, segundo essa evidência, parece-se muito mais com prazer e amizades do que com qualquer coisa que o dinheiro compre. E se a diversão em si começar a vacilar, essa é uma conversa diferente, com um artigo só dela.
Por isso, a pergunta útil não é a que se sussurra nas bancadas, que costuma ser alguma versão de “será que toda a gente acha isto fácil?”. É uma lista curta, feita em casa, uma vez por época. Como é a nossa pior semana, e quem a absorve quando chega? Toda a gente na casa ainda tem uma coisa que é sua, incluindo tu? Estarei demasiado metido nisto? olha com mais calma para essa. Se a próxima época pedir mais do que esta pediu, de onde viria isso? Nada disto precisa de uma folha de cálculo, e nada disto é aconselhamento financeiro. É uma casa a decidir, de olhos abertos, quanto espaço um só desporto pode ocupar na sua única semana partilhada.
A maioria dos clubes recomeça no início do outono: quotas, inscrição, a nova grelha de treinos. Marca esse momento. Uma vez por ano, antes de o dinheiro sair e o calendário encher, põe a época em cima da mesa como uma decisão a sério: mais ou menos isto é o que vai exigir, isto é o que conseguimos carregar, isto é o que mudaríamos. Na maioria dos anos, a resposta será um sim fácil, resolvido ao longo de um jantar. Em alguns anos, pode significar cortar uma competição fora ou largar outra coisa. Perguntar é que é o ponto: devolve à época o estatuto de algo que a tua família escolheu.
Partilha com o teu nadador
Quanto do esforço da família um nadador deve ver depende da idade. O peso é teu; a consciência dele pode ser partilhada, com cuidado:
- Menos de 12 (és tu que conduzes). Os custos ficam invisíveis para eles, o que está certo nesta idade. Se as manhãs ou o dinheiro estão a esticar a família, a conversa é entre adultos. O que eles precisam de ti na piscina é muito mais simples: “Adoramos ver-te nadar.”
- 12–15 (a partilhar o volante). Podem assumir a sua parte da logística: o saco, o material, saber o seu próprio horário. E podem ouvir factos simples e sem culpa quando os planos batem em limites: “Duas competições fora neste período dá. Três não.” Dito com calma, um limite assim cai como facto da casa, no mesmo tom que a hora de deitar num dia de escola.
- 16+ (são eles que conduzem). Um nadador desta idade pode entrar na verdadeira conversa de início de época: o que a época pede à família, o que lhes dá, o que querem dela. Nadadores desta idade sabem distinguir entre ser incluído e ser culpado. E ser consultado é uma forma de respeito.
Mantém-te alinhado com o teu treinador
O treinador é dono do lado desportivo da época: que competições importam, quando o treino sobe, o que uma semana de taper precisa. Tu és dono do que a casa consegue carregar. E os dois só chocam quando nenhum dos lados conhece o quadro do outro. Uma pergunta que vale a pena fazer quando o teu nadador entra num grupo ou sobe de escalão: “Como é uma semana normal neste grupo, e como muda ao longo da época?” A resposta deixa-te planear o sim da família com honestidade. E mantém-te longe da única pista que nunca é tua: decidir como treinam.
Continua a explorar
- Estarei demasiado metido nisto? A armadilha da identidade do pai-nadador — o foco numa linha deste artigo: o que acontece quando o calendário do desporto passa, sem dar por isso, a ser o teu.
- Devemos deixá-los desistir? A pergunta por baixo da pergunta — para a época em que o nadador começa a pesar sozinho a carga.
- De quem é o objetivo? Porque o nadador tem de o querer — a família carrega a logística; a vontade tem de continuar a ser do nadador.
- A primeira competição do teu nadador: o que esperar mesmo — o formato de um fim de semana de competição, hora a hora, para famílias novas no desporto.
Aprofunda com os especialistas
- Is youth swimming becoming too expensive for the average family?, Kevin Pierce no SwimSwam: como uma atividade de iniciação cresce até se tornar um grande compromisso familiar, e porque as famílias esticadas tantas vezes ficam caladas sobre isso.
- A systematic review of dropout from organized sport among children and youth, Crane & Temple (2015): a revisão de investigação por trás da afirmação deste artigo sobre porque as crianças deixam mesmo o desporto, com a natação entre as modalidades mais estudadas.